LIVRE PARA SER PRESO

DE: AFOBÓRIO FEITO DE CARNIÇA

livre para ser preso

      “Alencar bebia vinho todas as noites, enquanto ouvia música clássica. Depois da última taça, quebrava a garrafa e mastigava um pouco do vidro. As noites sulinas favoreciam o costume, apreciado de brisa fria e lua grande. Interessante que a TV ligada
no mudo fazia contraste com o rádio enlouquecido. Por aquelas bandas, o Programa do Grama era a melhor diversão. O locutor era um interiorano descolado que fazia uma mistura de música clássica com notícias policiais, comentários de ouvintes, algumas enquetes e um pouco de rádio novela.

   A vista da varanda era profunda por demais, e a primeira garrafa já estava perto do fim. Seus lábios estavam ligeiramente dormentes e as primeiras lambidas nos utensílios já haviam acontecido. Alencar dava mostras de sossegado, e aproveitava sua solidão quando foi surpreendido por uma chamada que atravessou a programação: Extra, extra, extra: confusão na penitenciária de Sorte Crença. Ao que tudo indica, alguns presos conseguiram fugir durante uma rebelião, que rapidamente foi controlada. Segundo as autoridades encarregadas do caso, os melhores homens da nossa polícia estão na caça desses delinqüentes. Esse foi o seu Plantão Extra, sempre o primeiro.

   Alencar acendeu um cigarro, com os olhos fixos no horizonte, e a música voltou. A fumaça criava uma cortina bêbada que turvava o seu campo de visão, deixando um clima ainda mais romântico e doce no ar. O vinho e o abandono regavam a noite, que testemunhava uma calmaria e um frescor de uva que tomava conta de seu paladar e deixava o vidro ainda mais tentador.

   Os olhos pareciam saltar da cara do homem levemente embriagado que, atirado em sua cadeira de balanço, esperava o tempo passar. Então o cão latiu. Alencar levantou e foi até o lance de escadas que guiava para o abrigo da varanda.

   Olhou na volta e nada percebeu além da ausência de seu companheiro fiel:

   – Sombra. Venha. Cadê você, garoto?

   E o cão veio até os pés do dono, e deitou para receber os carinhos:

   – Sombra, meu velho amigo, o que houve?

   O animal punha a língua para fora enquanto roçava o pescoço
nas pernas do homem a lhe acarinhar as costas:

   – Vamos; calma. Deite aqui e fique comigo – disse o homem,
apontando para o lado da cadeira de balanço.

   O cachorro obedeceu e deitou no exato lugar onde lhe foi apontado. O comedor de vidro voltou para o seu lugar e continuou a olhar para o sem fim. De repente os arbustos que cercavam a casa balançaram. O cão levantou e ladrou mais uma vez. Desconfiado, Alencar passou a mão em sua espingarda calibre doze de cano duplo, que repousava bem ao seu lado. O cachorro ficou ainda mais nervoso, desceu para o gramado e permaneceu a abanar o rabo, arrepiar os pelos e escancarar os poderosos dentes.

   O jeito foi intervir mais uma vez:

   – Sombra, já aqui!

   E o canino atendeu, voltando a espichar o corpo no mesmo lugar de antes. Enquanto isso, Alencar acompanhava calmamente o baile dos arbustos sem demonstrar que havia percebido a situação.

   A cada instante o clima ficava mais frio e tenso. O tempo ia passando e nada saía do ventre das plantas. Os olhos do homem percebiam que o intruso tentava contornar a casa pelo meio das folhagens, e permaneceu seguro, esperando o momento apropriado para agir de uma vez só. Acendeu outro cigarro e atuou com astúcia:

   – Venha Sombra!

   E os dois entraram. A porta foi fechada e o cão passou a correr próximo das janelas, como se fizesse a ronda e acompanhasse os passos de alguém ou alguma coisa, lá fora. Alencar sentou na poltrona ao lado do telefone, desligou o rádio, apagou as luzes e acendeu o abajur vermelho que dividia espaço com os badulaques sobre a pequena mesa. Dava a impressão de esperar alguma coisa, ou alguém. Quando olhou pela vidraça, viu que uma silhueta corria no gramado dos fundos da casa. Levantou com velocidade da poltrona e foi para a passagem que dava acesso ao pátio.

   Mirou a maçaneta e abriu a porta com a arma engatilhada, em
posição de disparo:

   – Quem está aí?

   Recebeu em resposta somente silêncio.

   – Não vou repetir. Na próxima vou soltar o cão. E se não aparecer com as mãos para o alto, vou atirar.

    Nesse momento, um homem vestindo um uniforme do exército
e um longo casaco preto nasceu do seio dos arbustos, os braços
levantados:

    – Não atire. Sou de paz…”

LIVRE PARA SER PRESO –  Alencar era um homem bruto, vivia sozinho, ele e seu cachorro Sombra. Sua diversão no fim do dia era ouvir música clássica beber um bom vinho e depois quebrar a garrafa e mastigar um pouco de vidro, depois da última taça. O Comedor de Vidros, curtia a solidão quando foi surpreendido pela noticia da fuga de alguns delinquentes, de uma penitenciária local.

Alencar era um caçador e se orgulhava de nunca perder sua caça. Gostava, sobretudo, das onças. E foi desconfiado e intimidador que ele recebeu  seu invasor, na ponta de sua espingarda. E o manteve sobre sua mira o tempo todo. Mas o que Alencar não sabia era que essa onça também  caçava. E ela era uma exímia caçadora…

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VAMPIT

J. P. Santos. Agradece.

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